Observando o Vão

Se engana aquele que, de volta ao Brasil após longa temporada em terra alheia, crê que não sentirá a menor saudade da ex-vida de ex-pat. Sente sim. Eu mesma, vez em quando me pego tragada pela melancolia, saudosa da minha Londinium. Me controlo pra não soar lamentosa e azeda, posto que tenho orgeriza daquele  que volta mas não volta.  E faz comparações esdrúxulas entre o statuo quo e o anterior. Eu, hein? Insuportável, sujeito repetindo “porque láaaa”, “é que láaaaa”, “imagine que láaaaa”. Intragable, como eles diriam lá.

Não que eu não ame o Rio de Janeiro, longe disso. Em que pese os problemas (que não são poucos), o Rio simplesmente não existe e eu adoro sentir o olhar de invejinha dos que vêm somente pra passear. Morador que é morador sabe que cara deve fazer ao caminhar pelo calçadão de Copacabana. Eu já aprendi – ponho minha melhor carinha de moradora, um andar meio solto, meio sem hora pra voltar. Faço jeito de quem vai continuar ali, uma cara de “pode me abanar do avião”. Então, só pra ficar claro, quanto a voltar ao Brasil e morar no Rio, no regrets.

Mas voltando as saudades de Londres, elas vêm e vão, feito metrô.  Ah, o metrô londrino.  Saudade vem  quando eu lembro do quanto era fácil chegar by tube a qualquer lugar, quase a qualquer hora (e o quanto era seguro fazê-lo). E quando penso na organização tácita, impregnada na sociedade, onde só se entra no trem depois que todo mundo sai. E onde se deixa livre a esquerda na escada rolante (…porque láaaaaa…). No metrô carioca – needless to say – as coisas não funcionam desse jeito. Os horarios são limitados, as linhas são limitadas e nós usuarios nos limitamos a ignorar qualquer regra não escrita e dizemos Ih..não podia? Não gostamos do tal do Tácito.

Well, mais ou menos. Outro dia relembrei uma regra não escrita e, até onde eu sei e pelos países que visitei, de autoria brasileira. Regra esta que todo mundo por aqui respeita: A regra do sentou, segurou. No nosso metrô, lugar de mochila pesada é no colo de quem teve a sorte de sentar. Requer um pouco de técnica, mas é simples: quem tá em pé deixa bem a mostra o objeto pesado; quem tá sentado só faz esticar o braço, catar o sobressalente alheio e ajeitá-lo no colo. Convem sempre lembrar das regras do esse quebra/amassa. Marmita, por exemplo, melhor deixar em cima.

Grávida também é considerada “coisa pesada”, então também senta. Sempre, sempre, sempre. Nunca viajei em pé. E se recuso fica chato, porque são 2, 3 oferecendo, então parece desfeita minha.

E a saudade de Londres passa? No way, Jose. Mesmo com todos aqueles passageiros mau humorados, ainda sinto uma falta imensa do cheiros, dos jornais, das diferentes caras e tipos e daquela voz de mãe me mandando “stand clear off the closing doors“. Tudo isso está tão longe, mas ainda tão perto de mim. Oh well.. sempre existirão a Northern e Metropolitan lines. E enquanto eu não puder visitar Londres e matar saudades do Mind the Gap, estou feliz, muito feliz, aqui, simplesmente Observando o Vão.

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Uma resposta para “Observando o Vão

  1. Awesome!
    Londres nao eh mais a mesma sem voce Roooooooo

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